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Acabei de publicar um novo artigo que pode te interessar:
Título: Quando o “ao vivo” expõe o que a sociedade ainda insiste em esconder: a importunação sexual e a falsa ideia de consentimento
Um fato que leva a reflexões importantes, principalmente por sabermos o quanto lamentavelmente ainda é comum a ocorrência, mas muitas vezes no “privado”, na clandestinidade, até que, por diversos fatores, talvez pela naturalização de uma cultura que justifica, acaba ocorre de forma pública, gravada, com milhões de pessoas assistindo, no cenário de um reality show, monitorado por câmeras ao vivo 24 horas por dia, e nem esse fato coibiu o ato.
Muito se fala, mas quando ocorre na clandestinidade poucos chegam a crer, ou ainda se vê a sociedade justificando, culpabilizando e descreditando a palavra da vítima.
Um ato que não deveria ocorrer em lugar nenhum, nem no privado e tampouco no público, mas com câmeras vigiando o local de forma permanente, em tese deveria ser o último lugar onde alguém se sentiria insegura com relação à própria integridade física. No entanto, nem mesmo as câmeras do Big Brother Brasil são capazes de impedir que a cultura do assédio se manifeste, revelando o quanto a violência contra a mulher ainda é naturalizada, até mesmo sob o olhar atento do público.
A recente situação envolvendo um caso de importunação sexual dentro do programa reacendeu um debate essencial: o que leva homens a acreditarem que o impulso, o desejo ou a suposta liberdade de um ambiente descontraído são justificativas para violar o corpo de uma mulher?
A resposta está na cultura machista que atravessa nossa sociedade, sustentada pela ideia de que o corpo feminino está sempre disponível, de que o “não” precisa ser interpretado, e de que comportamentos, roupas ou interações podem significar permissões e “não significam”
A importunação sexual, prevista no artigo 215-A do Código Penal, é crime, sendo a conduta tipificada da seguinte forma: “Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro” e a pena prevista é de 1 a 5 anos de reclusão.
Os atos libidinosos são toques sem permissão, beijo forçado, roçar disfarçado, os quais infelizmente são gestos que muitos ainda tentam minimizar como “brincadeira”, mas que representam a invasão mais íntima que uma mulher pode sofrer: a do próprio corpo.
No caso de um reality show, onde tudo é filmado, o que se vê é mais do que um crime isolado: é a exposição de uma estrutura social que culpa a vítima e absolve o agressor, que tenta transformar o ato violento em “erro de interpretação” ou “excesso de carinho”.
Porém as câmeras não mentem, o desconforto da mulher, o recuo do corpo, o olhar de medo ou constrangimento são provas tão claras quanto qualquer imagem.
É urgente entender que a importunação sexual não se mede pela intenção de quem pratica, mas pelo limite de quem sofre e toda mulher tem o direito de estabelecer limites e tê-los respeitados, pois os limites são sobre o próprio corpo.
Quando a sociedade ainda tenta justificar o injustificável, programas como o BBB acabam se tornando espelhos de uma realidade que preferimos não ver: a insegurança cotidiana da mulher em qualquer espaço, seja nas ruas, no trabalho, na balada ou até sob vigilância constante, como dentro de uma casa com câmeras 24 horas.
Percebemos que nem gravação e monitoramentos constantes não impedem o assédio. A presença de câmeras não impedem a violência, o que impede é a educação, o respeito e a consciência de que consentimento, que deve ser claro e não por interpretações, é a única linguagem possível em qualquer relação.
Enquanto continuarmos relativizando o crime, dizendo “foi só um impulso” ou “ele não teve intenção”, estaremos reforçando o mesmo sistema que permite que a violência aconteça e se repita.
É preciso romper o silêncio, responsabilizar os agressores e reeducar uma sociedade que ainda insiste em culpar mulheres por serem vítimas.
Falar sobre isso incomoda, e é justamente esse incômodo que transforma, porque nenhuma mulher deve se sentir insegura nem nas ruas, nem em casa, nem diante de câmeras e até que isso seja verdade, toda voz que denuncia é um ato de resistência.
Não podemos nos calar! Nem por nós e nem por todas!
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